Minha “pequena voz interior”
“Admirá-vos eu nunca mover os lábios em igreja alguma,
murmurando entre dentes uma oração.
A razão é que a grande vontade divina dos Céus
Escuta a pequena voz interior.
Admirá-vos tão raro me verdes
Eu pôr o pé no templo dos deuses.
Deus está em nós. Não necessito meditar Nele
Em igrejas decoradas”
(Conradus Celtis (1459-1508).Apud John Rigby Hale, A Europa durante o Renascimento, 1480-1520, tradução Antônio Sabler, Lisboa, Editorial Presença, 1983, pág.200.)
Porquês, arrogância e personas.
Por que há lugares engessados que querem te engessar ? As vezes afirmo os porquês como um dos meios pelos quais a arrogância se propaga sem ser percebida. Eles são úteis não só para chegar ao conhecimento, mas também atestam a impotência humana. O por quê eu não sei, ou, será tudo culpa das personas, que escondem a insegurança de alguns ?
Crianças adultas
“As horas passam e as pessoas nem se dão conta de todo esse tempo que passou. Eu com os meus 18 anos penso que o tempo passou tão rápido e ainda mais rápido quando esperamos que ele passe devagar.
Meus irmãos cresceram, meus bisavós, tios entre outros morreram, meus amigos da escola em maior parte se foram, uma nova fase se iniciou e já virou rotina.
Como as coisas são rápidas! Como eu queria ser aquela criança que a 8 anos atrás brincava sem parar, que nao se importava com as coisas importantes da vida, com as responsabilidades fúteis dos adultos!
Como é ruim ser adulto, fazer parte de um grupo que quer um se sobressair por cima do outro, um grupo profissional que nao liga pros sentimentos uns dos outros…
É frustrante pelo menos pra mim ser adulta, e nao se adaptar a esse mundo novo. Ser criança é apenas ser gente, quando nos tornamos ‘responsáveis’ entramos no mundo dos bichos chamados homens. Eles se trucidam entre si e destroem tudo ao redor.
Alguns são bons e são chamados de crianças eternas, pessoas que sempre quero ao meu lado. Espero sempre ser essa criança eterna que brinca com a vida e nao leva ela a sério, que nao tem medo de viver e de morrer, que nao espera nada de ninguém.
Sou algueém que nao quer que o tempo passe dentro de mim, mesmo que o tempo no mundo material passe, no meu mundo eu sempre serei a menininha do vovô e da vovó. “
Quero um tênis Nike
Estudando cartas, encontrei uma interessante. Confiram:
“PREZADOS SENHORES,
Uns amigos me falaram que os senhores estão para destruir 45 mil pares de tênis falsificados com a marca Nike e que, para esse fim, uma máquina especial já teria até sido adquirida. A razão desta cartinha é um pedido. Um pedido muito urgente.
Antes de mais nada, devo dizer aos senhores que nada tenho contra a destruição de tênis, ou de bonecas Barbie, ou de qualquer coisa que tenha sido pirateada. Afinal, a marca é dos senhores, e quem usa essa marca indevidamente sabe que está correndo um risco. Destruam, portanto. Com a máquina, sem a máquina, destruam. Destruir é um direito dos senhores.
Mas, por favor, reservem um par, um único par desses tênis que serão destruídos para este que vos escreve. Este pedido é motivado por duas razões: em primeiro lugar, sou um grande admirador da marca Nike, mesmo falsificada. Aliás, estive olhando os tênis pirateados e devo confessar que não vi grande diferença deles para os verdadeiros.
Em segundo lugar, e isto é o mais importante, sou pobre, pobre e ignorante. Quem está escrevendo esta carta para mim é um vizinho, homem bondoso. Ele vai inclusive colocá-la no correio, porque eu não tenho dinheiro para o selo. Nem dinheiro para selo, nem para qualquer outra coisa: sou pobre como um rato. Mas a pobreza não impede de sonhar, e eu sempre sonhei com um tênis Nike. Os senhores não têm ideia de como isso será importante para mim. Meus amigos, por exemplo, vão me olhar de outra maneira se eu aparecer de Nike. Eu direi, naturalmente, que foi presente (não quero que pensem que andei roubando), mas sei que a admiração deles não diminuirá: afinal, quem pode receber um Nike de presente pode receber muitas outras coisas. Verão que não sou o coitado que pareço.
Uma última ponderação: a mim não importa que o tênis seja falsificado, que ele leve a marca Nike sem ser Nike. Porque, vejam, tudo em minha vida é assim. Moro num barraco que não pode ser chamado de casa, mas, para todos os efeitos, chamo-o de casa.
Uso a camiseta de uma universidade americana, com dizeres em inglês, que não entendo, mas nunca estive nem sequer perto da universidade – é uma camiseta que encontrei no lixo. E assim por diante.
Mandem-me, por favor, um tênis. Pode ser tamanho grande, embora eu tenha pé pequeno. Não me desagradaria nada fingir que tenho pé grande. Dá à pessoa uma certa importância. E depois, quanto maior o tênis, mais visível ele é. E, como diz o meu vizinho aqui, visibilidade é tudo na vida. “
(Moacyr Scliar, cronista da Folha de S. Paulo, 14/8/2000).